Nós somos e queremos ser entendidos como fruto desse cadinho cultural, como frutos da cultura que se faz múltipla em Salvador.
Queremos ajudar a ter de volta um momento na Boa Terra em que se viam as mesmas 60 pessoas em uma atividade na casa de Angola, depois na Academia de Letras da Bahia e depois na galeria de artes do extinto hotel Salvador Praia. Claro, a mínima estatística mana inferir que eram 200 pessoas (pelo menos ) que participavam sempre da efervescente vida cultural desta Soterópolis, a cada noitada cultural.
Como extensões e prolongamentos do que se gestou no CEAS do nosso agora saudoso padre Andrés, Academia de Letras da Bahia, Centro de Estudos Baianos e CEAO no Pelourinho, da OSBA, da OSUFBA, e, claro, da inquietação das atividades na universidade.
Angelo Agostini, homenageado desta noite, deve estar feliz e tirando fotos com Ernesto Simões Filho lá do céu. Afinal, só quem consegue fazer de um sonho que se faz papel uma sequencia que perpassa décadas sabe o poder das ideias.
Sim, senhores vos digo, nossa Nona Arte amadurece somente a partir de 1974, 1975, como fulcro de cultura, com livros de Moacy Cirne, Álvaro de Moya, Roman Gubern e Luis Gasca. Mas colossais avanços se fizeram desde então, e - seja no aspecto da crítica, seja no tocante ao domínio dos lápis, tablets, pincéis e roteiros, é inegável que os quadrinhos não ficam atrás do cinema, quanto a suas melhores expressões.
A diversidade é nossa marca, exatamente por que os quadrinhos são a arte mais portátil do mundo, e a que mais se plasma aos corações, com pendores de definitividade, de gestalt afetiva, como diria o maior crítico de Arte que a América Latina deu ao mundo, o mestre Mario Pedrosa.
No alto deste prédio que nos abriga nesta noite, temos o centro de Estudos Baianos, que propiciou a publicação da principal obra em exposição deste Dia do Quadrinho Nacional em Salvador, a que revela Ernesto Simões Filho, o intrépido fanzineiro. Como não estamos em 1968, podemos exigir o possível: senhoras, senhores que dirigem a UFBA atualmente: façam reeditar pelo menos algumas destas obras tão curtas, singelas e imorredouras que compõem a coleção do CEB. Eu li em torno de 40 delas, em especial pelo preço mais que acessível e pelo excepcional local que tinham para estar à vista de todos, na antiga Faculdade de Medicina, no Pelourinho. Tiragens pequenas, grandes, não importa: não conheço nada que com pouco custo tivesse aportado tantas informações sobre nossa cultura, e deveria sempre haver novas tiragens dela.
Olhem estes jovens e nem tão jovens que fazem Nona Arte na Bahia, e que expõem seus trabalhos nestas mesas. Na mente de cada um deles há uma leitura, uma tessitura, traços e sínteses que são frutos da comunhão e também da diversidade que perpassa nossas ruas, templos, praias e a saborosa boemia baiana. Não se faz arte com a visão de gueto, todos sabemos. Por isso, convidamos tantas pessoas de tantas áreas para ver o amadurecimento de nossa arte.
Hoje, em especial, dirigimos os pensamentos a quem nos deixou a pouco: o mestre Bira Gordo, o padre Andrés e a professora Angelina Bulcão Nascimento, cada um com suas sínteses e legados únicos.
Sejamos todos iguais e plurais, nesta noite, afinal, o mais brasileiro dos vênetos, homenageado de hoje, é um caso raro: por suas ideias, foi perseguido pelo Império e pela República. Mas sua obra é mundial, e não morrerá nunca, assim como a ideia da construção coletiva de uma sociedade sem muros, para a qual os jornalistas de hoje e amanhã aqui presentes têm papel fundamental.


